limite Texto

    limite – projeto em curso, iniciado em 2016

fotografia

desenho

 

“Recordo-me de ter palpitações, de sentir um prazer violento olhando um muro da Acrópole, uma parede nua (à esquerda, quando se sobe para o Propylées). E então, eu me pergunto se um livro, independentemente do que diz, não pode produzir o mesmo efeito? Na precisão dos rejuntes, na raridade dos elementos, nas dobras da superfície, na harmonia do todo, não existe aí uma Virtude como um princípio? ”

Gustave Flaubert

 

Falar através da imagem da superfície de um muro é uma antinomia. Estratégia de recuo, de invisibilidade, de ausência e de silêncio, distante de inserções ilusórias. Para tentar articular a realidade na sua complexidade, procurando oferecer mais a pensar do que a ver.

Um muro delimita o lugar habitado dentro de um território e a sua abertura, o espaço fechado que separa uma atividade cercada de uma vastidão infinitamente ocupada.

O muro é também o quê nos impede de ver e de passar. Ele revela, de modo claro e simples uma construção politica que nos separa, que nos aprisiona, que torna invisíveis as diferenças mesmo quando elas estão sob os nossos olhos.
O muro é o fato e também a metáfora. Ele está presente fisicamente e conceitualmente na nossa vida ordinária.

A fotografia de um pedaço de “muro” é a imagem de uma ausência. Extratos crus da nossa realidade, que procuram tornar visível  o movimento de exclusão no seio da nossa sociedade.

É preciso diferenciar analiticamente muro e fronteira. Nós nos distinguimos estabelecendo diferenças e assim reconhecemos o outro. A princípio, numa fronteira existe identidade. Para existir identidade é necessário que aja alteridade, caso contrário não podemos nos reconhecer. Determinar limites – natureza/cultura; homem/animal, etc – é essencial para a humanidade. O problema começa quando confundimos a fronteira com um muro. A fronteira é um duplo reconhecimento: eu e o outro, nós nos reconhecemos como diferentes e isso faz parte de nossa identidade. O muro, ao contrário, prende a identidade e impede a relação. Ele cria ou aumenta um conflito.

Neste inicio do século XXI, muros são construídos freneticamente em toda parte, enquanto o século precedente se encerrou com a promessa de abertura, de uma nova era de comércio e prosperidade – lembremo-nos da queda do Muro de Berlim, entre outros – a globalização diminuiria as diferenças e nos faria mais unidos. Entretanto, o terceiro milênio se abre sob novas tensões entre fechamento e abertura, universalização e estratificação. O mundo que se pensava em termos de fluxo, não parou de criar novos filtros e dispositivos, altamente desmaterializados, de monitoramento e controle. Nesse contexto, que pode significar muros terrivelmente concretos de aço e concreto, cobertos de arame farpado, um tipo de sobrevivência de uma outra época? Por quê, na época da globalização e da circulação um tal regresso? Se eles são funcionalmente ineficientes, seu poder discursivo, simbólico e teatral é incontestável.

“limite”

“Uma fotografia das fábricas Krupp ou GEC não revela praticamente nada dessas empresas; esta fotografia se impõe apenas na medida em que a partir dela seja construído ativamente algo de artificial, algo fabricado.” Bertold Brecht

Eu mostro apenas uma grande superfície de muro que elimina toda figura – uma superfície estendida como uma entidade em si, independente de qualquer outra coisa além de sua própria existência. A impressão relativa de sua casca, suas cores, sua argamassa, suas pedras – não oferecem nenhum ponto de conexão evidente, nenhuma identificação. Nestas imagens, nada está selado, tudo é opaco, são o resultado de dupla recusa: recusa de colar o olho no visor e recusa de usar o caminho do “sistema”.

Eu trabalho num processo de acumulação. Minha produção é exaustiva, repetitiva, ela tem uma lentidão, um ritmo – no olhar, no gesto. Em arte as tensões, os acontecimentos se produzem na gestão das fronteiras, nas suas passagens, nas suas transgressões, nos seus deslocamentos. É verdadeiramente nestes “limites” que se inscrevem as tensões entre as coisas.
A cultura contemporânea se acostumou a enxergar através de uma interface, uma tela, um filtro que estabelece uma mediação entre o ser e o mundo. Eu utilizo o muro como interface. Interrogo o mundo pelas suas rachaduras e arranhões, espasmos por onde a vida escapa e se abstrai. Mas minhas fotos não são abstratas, meu universo não é o “formalismo abstrato” – elas não são uma rejeição do mundo, mas uma ancoragem assumida no mundo. Quando limito o espaço dentro da imagem eu, justamente, reduzo o espaço especulativo. Quando corto um muro, eu acentuo que meu assunto não é esta superfície, mas que eu me aproprio dela para poder falar. Eu não neutralizo, ou ativo.

Minhas escolhas estéticas repousam no princípio de “achatamento” ou “planicidade”, que é o resultado de uma reflexão implícita sobre a natureza do meio fotográfico, ou melhor, sobre suas limitações. Utilizo a bidimensional da imagem fotográfica como base. Tudo que apresento é a superfície de uma parede. Minhas escolhas são também um posicionamento politico. Eu utilizo este achatamento extremo para tentar mostrar além da imagem. Desta maneira, eu falo por subtração, por esvaziamento, a tentativa Benjaminiana de reconstruir os fatos pelos detalhes.. O que é plano visualmente é imensamente profundo politicamente, uma profundidade que não pode ser compreendida através do olho mas que pode conduzir à uma reflexão. Através desta síntese radical, eu pretendo mostrar que o que se desenrola no espaço urbano é um retorno a condições feudais nas relações sociais, é a separação, a fronteira, a segregação, mas também a resistência.