nós Texto

“É seguindo a fronteira (entre os corpos),
ao longo da superfície,
que passamos do corpo ao espírito.”[1]
Maurice Merleau-Ponty

Espero que o trabalho contido neste ensaio seja suficientemente expressivo e dispense explicações, entretanto algumas reflexões são necessárias, mesmo considerando que analisar fotografia é raciocinar à posteriori (post-mortem, diria Henri Cartier-Bresson) através do filtro vivo do presente.

Prefiro chamar meu trabalho de “imagem” ao invés de “fotografia”. Sempre desenhei e pintei e considero todos esses meios como ferramentas para produzir imagens.

Todo trabalho artístico é intencional, apesar disso, muitas vezes, a complexidade de algumas imagens, extrapolam o momento e só se revelam com o tempo. Num longo percurso mais de dúvidas do que de certezas, me pergunto se a vida é aleatória, uma sucessão de acasos, ou se existe sentido(s).

Olhando minha vida a posteriori, lembro de ter comprado a primeira máquina fotográfica com seis anos. Comecei a estudar arquitetura com 17… de abandonar a faculdade no primeiro ano.

Desenhando e pintando, me profissionalizei como “artista”. Nesta fase da minha vida, a pintura me absorvia a ponto de perceber as cores das paisagens pela associação com as tintas.

Porém, num determinado momento, essa atividade deixou de me satisfazer. Procurando novos caminhos, voltei a estudar. Graduação em artes visuais na Universidade Federal do Mato Grosso do Sul. Mas minha insatisfação persistia… entretanto, em 2006, vivendo no meio da América do Sul, e procurando saídas, este era, talvez…, o único caminho. Encontrei no departamento de fotografia um local mais arejado. Os equipamentos: câmeras e objetivas, analógicas ainda, tinham excelente qualidade. Neste momento, a fotografia foi mais que um novo caminho, um prazer.

Uma sucessão de intercorrências me afastou um pouco mais da pintura; a escala dos meus trabalhos me colocava em permanente dificuldade com logística e, além disso, perdi o espaço físico que tinha para trabalhar. Com a fotografia, meu espaço se tornou o mundo e, filme, carta de memória ou chip, eu carrego comigo, no bolso.

Realizei o primeiro ensaio em 2008. Nesse momento meu objetivo era uma produção formal. Através do recorte, procurava transformar cenas urbanas em imagens planas e abstratas. Tinha como referencia a arte norte americana de meados do século XX, a abstração pós-pictoriailista. Minha pretensão era fazer com a fotografia o que eles faziam pintando.

Entretanto a complexidade do processo de captação visual me conduziu a outro lugar. Vejo com meus olhos, com meu corpo com meu espírito. Sou um ser mergulhado no mundo. O alcance do meu campo visual ia além das composições formais propiciadas pelas linhas, cores e sombras dos edifícios. A realidade pulsante da vida urbana me atingia com uma intensidade maior do que o previsto. Desse modo, meu primeiro ensaio fotográfico foi um portfólio de idosos que viviam nas ruas da cidade.

Na sua realização, compreendi que havia um princípio essencial para mim: a relação que eu estabelecia com o objeto retratado. Eu não era um espectador de uma cena a ser registrada. Cada imagem demandava um envolvimento. Antes de olhar pelo visor da câmera, eu precisava olhar nos olhos, conversar longamente, conhecer as vidas, ouvir suas histórias. Através do aparelho fotossensível eu captava mais que “fotografias”, eu apreendia a vida e passava a fazer parte dela. A “minha” fotografia realizava-se na experiência.

“Fazer uma experiência quer dizer, deixar-nos abordar em nós próprios pelo que nos interpela, entrando e submetendo-nos a isso. Podemos ser assim transformados por tais experiências, de um dia para o outro ou no transcurso do tempo.”[2]M. Heidegger

O desejo de compreender melhor o que percebia intuitivamente, me fez, aprofundar meus estudos, desta vez na Universidade de São Paulo. Entretanto, depois de alguns anos na academia me sinto como quando eu olhava as paisagens e via as tintas, raciocino lembrando dos autores que li e, muitas vezes, duvido ser eu quem está pensando, talvez esteja apenas processando ideias dos outros.

A fotografia é um processo físico, o registro do efeito luminoso sobre uma superfície sensível. Assim como os passos de uma pessoa deixam marcas na areia, na imagem fotográfica permanecem os vestígios do retratado. Desse modo, o fotógrafo parte de uma relação física que estabelece unidade fundamental com o mundo sensível. Mas eu me pergunto: o que é o sensível? O que é o real? A realidade é relativa, depende da posição de cada individuo dentro dela. Como dizia Nietzsche, “não existem fatos, apenas interpretações”. A foto é a transformação da realidade em imagem, sua abstração. Sendo assim, minha fotografia contém os vestígios do que vi, revelando minha posição e, sobretudo, minha interpretação. Ela indica o que vejo sensível e racionalmente.

“O espaço … é um espaço contado a partir de mim como grau zero de espacialidade. Não o vejo como uma camada externa, vejo-o de dentro, nele estou envolvido. Acima de tudo, o mundo está em torno de mim, não a minha frente.”[3]Merleau-Ponty

O artista está dentro do mundo e além deste, existe o seu mundo. Atrás dos seus olhos não há uma tela branca mas um complexo repertório emocional e imaginário mais ou menos atual, virtual ou potencial, que é ativado ou neutralizado de acordo com o estímulo[4]. Merleau-Ponty usa o termo chair = carne – ao falar de um trabalho que exprime a força de uma experiência carnal. Há a carne do corpo e a carne do mundo e em cada uma delas há uma interioridade que se propaga para o outro numa reversibilidade permanente. As coisas me tocam como eu as toco: carne do mundo distinta da minha carne: a dupla inscrição dentro e fora havendo, assim, imbricação e cruzamento entre o visível e o vidente[5].

A Universidade me proporcionou a oportunidade de estudar em outro país. Quando viajei, já havia cumprido os créditos necessários à minha formação, ou seja, eu não precisava mais de “nota”, o que me permitia maior tranquilidade e liberdade. Fiz diversas disciplinas e as aproveitei melhor.

Produzi as imagens que compõe este ensaio, para uma matéria de sociologia: Déambulation urbaine pour une quête de sens et inversement[6]. Nela, nós pensávamos a vida urbana – além das aulas teóricas, realizávamos deambulações pela cidade. Escolhíamos uma região, pesquisávamos, em sala discutíamos as condições de vida do local e saíamos a campo. Num grupo de cerca de 15 pessoas eu e mais alguns carregávamos máquinas fotográficas. Durante várias semanas trabalhamos em um bairro que muito me tocou, onde fiz a maior parte dessas imagens. No final do curso, uma pessoa que também fotografava me mostrou suas fotos: lindas imagens do céu. Ela me disse que nada naquele lugar a tinha atraído por isso ela se voltou para o céu.

Confirmei intimamente o que sentia desde meu primeiro ensaio. A fotografia resultante de tal experiencia, não se realiza na tomada, ela não é um ponto de vista ou a sua representação, nem sua impressão no papel, mas o conjunto de todas as complexas relações estabelecidas entre o fotógrafo e o fotografado. A fotografia é o fruto da espessura desse encontro, sua carne.

Esse verso do João Cabral de Melo Neto, resume muito do que sinto:

“…Espesso,
porque é mais espessa
a vida que se luta
cada dia,
o dia que se adquire
cada dia
(como uma ave
que vai cada segundo
conquistando seu voo).”[7]

Usei-o como epígrafe em um outro trabalho, a dois anos. “O cão sem plumas”, também fala de uma região, de um rio, mais que isso, fala da Vida em torno deste rio.

Já vivi em lugares distantes e sem conexão com os centros urbanos. Hoje vivo na cidade, caminho pelas ruas (lembrando do filósofo alemão Walter Benjamin), penso o meu “estar” no mundo; esse mundo imenso, multiforme, frágil e caótico, que na verdade me escapa. Uso a câmera como ferramenta de penetração. Fotografo em Campo Grande, São Paulo, Paris, no Recife de João Cabral de Melo Neto. O que procuro independe do lugar, mas da intensidade da relação que estabeleço com ele. É na espessura deste espaço que encontro a densidade da minha vida, sua essência. Nos substratos urbanos que extravasam pelas fissuras, nos atos de vandalismo, percebo gritos que exalam o oxigênio da insatisfação, da constante exigência de revisão dos conceitos. Procuro a experiência como caminho fazendo dele o meu trabalho.

“O que tento lhe traduzir é mais misterioso, se entranha nas raízes do ser, na fonte impalpável das sensações.”[8]J. Gasquet

Impressão fine arts jato de tinta sobre papel algodão

Escala sugerida: 140 x 210 cm

  • [1]

    « C’est en suivant la frontière (entre les corps),
    en bordure de la surface,
    que nous passons du corps
    à l’incorporels. » (tradução nossa)

  • [2] Martin Heidegger apud Bondia, 2001, p. 25.
  • [3] Maurice Merleau-Ponty, 1964: 36. « L’espace […] c’est un espace compté à partir de moi comme point ou degré zéro de la spatialité. Je ne le vois pas selon son enveloppe extérieure, je le vis du dedans, j’y suis englobé. Après tout, le monde est autour de moi, non devant moi. » (tradução nossa)
  • [4] Gilles Deleuze et Guatteri, 1991: p.59.
  • [5] Maurice Merleau-Ponty, op. cit.
  • [6] Digressão urbana para a busca de sentido e vice-versa
  • [7] João Cabral de Melo Neto. “O cão sem plumas”.
  • [8] Gasquet apud Merleau-Ponty, 1964, p. 08 – “Ce que j’essaie de vous traduire est plus mystérieux, s’enchevêtre aux racines mêmes de l’être, à la source impalpable des sensations. » (tradução nossa).